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Entrevista com o Escritor Kerley Carvalhedo

Entrevista com o Escritor Kerley Carvalhedo

Data de publicação: 29 de julho de 2020
Hora: 11:45h



 


Kerley é um escritor brasileiro que tem paixão por receber as pessoas e por conversar sobre literatura e a vida. Em entrevista ao DiárioRS, Kerley, comenta a criação do novo livro e analisa o momento político e cultural do país.


Kerley Carvalhedo talvez seja um dos mais importantes escritores de crônica do Pará, seu estado natal. Ele é vivaz por um sentimento de profundo humanismo ao abordar em seus textos as situações mais dramáticas de nosso tempo, como política, filosofia e as relações humanas.



Ele fala também sobre seu descontentamento com o país: “O Brasil vive etapas difíceis”.  Em passagem pelo estado do Rio Grande do Sul para participar da 64ª edição Feira do Livro de Porto Alegre, em 2018, ficou conhecido por sua literatura simples e descomplicada.



Kerley conversou com o DiárioRS sobre questões socioculturais. E, nesta entrevista, o imortal da Academia de Letras do Sul e Sudeste do Pará (ALSSP) fala: “Um país sem educação, sem cultura e sem arte vira lugar de pura subsistência e violência”. Ressalta.



Afirma: “a aproximação com a leitura também deve ser estimulada em casa, com a família. Não basta oferecer mais livros, é preciso influenciar a qualidade da leitura na formação de novos leitores, boa parte dessa formação depende também do papel do editor e dos professores”.



1. Vou começar perguntando como está sendo para você essa quarentena, mesmo sabendo que o escritor já trabalha mais remotamente, tem um pouco o exercício da solidão, ou seja, é mais acostumado com esse isolamento, mas agora estamos vivendo um outro momento, como é que está sendo para você tudo isso, Kerley?    


A quarentena em si não está muito difícil, pois eu já pratico esse exercício da solidão há muitos anos, talvez desde o final da adolescência. Normalmente, saio pouco de casa. O que estou encarando com maior dificuldade é o isolamento, a ausência do contato humano mais físico (aquele abraço mais caloroso), as visitas dos amigos e os papos interessantes, face a face, fazem falta. Mas, de certa forma, eu gosto muito da minha toca, da minha casa, da minha, às vezes, povoada solidão (que não pode ser confundida com abandono). As pessoas se assustam quando digo que minha rotina de algum modo continua preservada nessa quarentena.



2. E o que você está entendendo de tudo isso que nós estamos vivendo?


A minha impressão é a de que estamos todos sem entender muita coisa, muito perplexos com o que está acontecendo. De repente, começamos a ficar angustiados, sem saber o que fazer, entretanto, meio que desnorteados, ainda estamos caminhando tentando restabelecer uma possível “normalidade”. Alguns países conseguiram passar por esta quarentena sem grandes efeitos, porém, aqui no Brasil, nós não conseguimos fazer o mesmo; fundamentalmente porque já estávamos em crise de representatividade, de gerenciamento do país, pois descobrimos que não temos um líder, aliás, sempre tivemos esse sentimento de que nos falta um bom líder. Não é novidade o descaso do governo diante dos sérios problemas que afligem a sociedade brasileira, a pandemia, uma tragédia anunciada, é uma infeliz constatação desse descaso. É lamentável ter um governante que não representa sua nação. O que nos resta é nos prevenirmos da melhor maneira, cada qual confinado no seu canto, contemplando o lado belo e o feio desse momento pandêmico, aprender a lidar de modo simples com aquilo que é difícil suportar. O lado bom dessa tragédia é, que podemos parar para refletir e talvez tenhamos uma chance de mudar em alguma coisa.



3. Está todo mundo muito assustado, a morte foi escancarada na nossa frente, e parte da humanidade está sendo dizimada pela COVID-19, mas você acredita numa transformação dos seres humanos quando sairmos disso tudo? Será que vamos voltar a nos abraçar no futuro? 


Essa é mais uma pergunta para a qual não tenho uma resposta objetiva. Se sairemos melhores ou piores, e se voltaremos a ser pessoas normais, ou se teremos o chamado “novo normal”, tudo é especulativo, mas é factual a necessidade de mudança no comportamento da humanidade ou outras tragédias acontecerão. Dessa vez foi universal o sofrimento humano. Não poupou ninguém. Sabemos que a história da humanidade sempre foi muito terrível. Houve grandes epílogos, grandes tormentos, pragas, guerras, mesmo assim, a humanidade sempre levou adiante o que ela imaginou ser a civilização para ela, portanto, não estamos escapes das infinitas crueldades da vida humana. Entretanto, ainda que sejamos seres com altas habilidades adaptativas, capazes de superar as adversidades, esse é um momento crucial, nunca a existência humana esteve tão ameaçada como agora, precisamos agir para evitar que isso aconteça. Portanto, temos que desejar que esse horror que estamos vivendo passe logo. Não posso afirmar que sairemos melhores, pois o coração humano é difícil de ser lapidado, nós nunca fomos seres fáceis. Toda essa situação de isolamento, mortes e sofrimento mostrou que, se por um lado há uma corrosão nas relações humanas, em outros casos, as pessoas descobriram o quanto o outro passou a ser interessante, isto é, o quanto a presença do outro é importante para a sobrevivência de todos e é essa percepção que poderá nos livrar do caos, Esse olhar mais solidário e empático.



4. Nos últimos anos, surgiu no Brasil uma variedade de eventos literários, participar deles tem feito você perceber o país por outros ângulos? Que papel essas iniciativas podem cumprir em relação ao acesso à literatura?


Sempre vejo algo. Esses eventos são fundamentais para as localidades e para o país. É importante dizer que não basta oferecer mais livros, é preciso influenciar a qualidade da leitura na formação de novos leitores, boa parte dessa formação depende também do papel do editor e dos professores. É preciso escolher bons livros literários, garantir a diversidade de gêneros e levar em conta as preferências dos leitores. Confesso que esses encontros são corridos e não permitem que eu tenha um panorama de tudo o que acontece por lá. De algum modo, é preciso fortalecer a cultura canônica, as artes e combater a ignorância. Um país sem educação, sem cultura e sem arte vira lugar de pura subsistência e violência.



5. Você̂ sempre viaja pelo Brasil como escritor, como você̂ percebe tudo o que está́ acontecendo na política atual?


Tenho que dizer o seguinte, vejo com inquietação descomunal. Uma tristeza desmedida. O país não pode ficar à mercê das concessões ingovernáveis de um presidente da república que assume que não sabe fazer política, não sabe lidar com o contraditório e não sabe o que é democracia. O país elegeu um líder, mas quando precisamos do seu posicionamento não o vemos. Nós precisamos de políticos que saibam representar sua nação. O país está à deriva. A cada peça que se movimenta no jogo político que este governo impôs, o que se vislumbra é uma verdadeira tragédia. O que tem prevalecido no país é a mentira, a hipocrisia e a ignorância. Por onde ando, vejo uma frustração coletiva, pois havia uma devoção a este governo —, é um atentado à credibilidade. Veja, o ministro Paulo Guedes, para justificar o tamanho do trabalho e das dificuldades, disse: “Além de toda essa crise, temos que apoiar cerca de quarenta milhões de brasileiros informais”, ou seja, fora da forma constitucional. São brasileiros que não tem lugares saudáveis para morar, para viver com o mínimo de dignidade. São moradores de favelas que continuam a crescer nos grandes centros urbanos. Esses são os chamados “invisíveis”. A pandemia, ao meu ver, mostrou que os invisíveis são sim visíveis. E são chamados de ilegais ou informais, não porque eles sejam contra a ordem jurídica ou contra a constituição, mas porque eles não têm acesso àquilo que a constituição lhes garante. Infelizmente, neste imenso país, ainda existe uma grande parcela da população não beneficiada e não inclusa pelas políticas públicas do estado brasileiro. Em contexto geral, esses sujeitos são excluídos do chão do Brasil, não são acolhidos no colo da “Pátria Mãe Gentil”. Os fracassos de Brasília nos impõem a acreditar que a administração pública atende, na grande maioria das ações, a interesses pessoais, desprestigiando a coletividade.



6. Pode se dizer que você̂ se sente desconfortável em relação ao Brasil?


Eu acho que a maioria dos brasileiros sentem um profundo desconforto e descrédito na política, já não acreditam nos poderes. Eu estou envergonhado com tantos desastres na política brasileira. É necessário protestar, mas temos que nos acautelar com os avanços da barbárie, ela é o pior que poderia acontecer à humanidade, à nossa civilização e à nossa democracia. Eu acredito na arte e na nossa linguagem como civilização. O Brasil vive etapas difíceis, entretanto, saberá, como sempre soube ao longo da história, tentar solucionar problemas inadiáveis. É preciso nos atentarmos para a história, e para tudo aquilo que ameaça a civilização, e saber que não estamos preparados para sobreviver grandes falhas e futuros fracassos.



7.Foram realizados diversos cortes de investimentos na educação no Brasil, houve repercussão e manifestos. É possível um país se reerguer sem investimentos suficientes nessa área?









Na visão de um ignorante sim. Mas para quem tem o mínino de discernimento e noção sobre a realidade, saberá que a redução nos investimentos na educação causará o agravamento dos grandes problemas sociais que assolam a sociedade brasileira. Como pode ter um profissional ignorante? É pouco provável que alguém consulte um médico sem seu percurso acadêmico, ninguém vai querer um médico assim, um engenheiro civil, ou em qualquer outra profissão. É a valorização da educação, do conhecimento que garante a formação de bons profissionais que atuarão para o desenvolvimento da nação. Quem discorda disso prefere ter um povo ignorante. Sem defesa. E isso é um absurdo. Portanto, é impossível um país se reerguer sem investimentos na área do conhecimento. Não estou vendo nenhuma luz no final do túnel com esses cortes nas verbas destinadas ao sistema educacional brasileiro. Essas medidas comprometem o projeto de desenvolvimento do país, acentuando os problemas sociais que enfrentamos como a desigualdade, a fome dentre outros, que nos impõem a indesejável condição de país subdesenvolvido.





8.Em algum momento já pensou em sair do Brasil por conta da violência, ou por outro problema?


Não posso negar que toda essa situação: de violência, injustiça, corrupção causa-me certa angústia que me fazem pensar em sair do Brasil e buscar ares mais tranquilos, quem sabe em algum país da Europa, porém abandonar o Brasil à essa altura não seria honroso. É inegável que todos esses problemas existam, principalmente na cultura brasileira, mas é preciso acreditar que é possível superar tudo isso. O país não é esse caos, não pode ser. Isso posto, deve haver um jeito de sempre encontrar espaços de resistência, e algumas figuras públicas que poderiam ter ficado quietas, deixando a coisa passar, têm dado a cara, assim eu também o faço. Não me interessa que me chamem esquerdista ou fascista. Interessa-me que nenhum cidadão seja excluído, que ninguém esteja diminuído. É uma questão moral, política e humana. Nosso grande desafio na atual situação política brasileira é exigir um estabelecimento de paz para que o diálogo seja possível. 



9. Atualmente, você vem se dedicando à escrita de algum novo trabalho?


Maior parte do meu tempo é dedicado à literatura. Terminei o novo livro de crônicas que espero publicar em breve e estou quase terminando um romance. Espero terminar até dezembro. Estou aproveitando essa fase de produção literária, porquanto passei por longos meses sem escrever absolutamente nada.



10. A literatura o ensinou a lidar com quais questões?


Com muitas questões. Sobretudo, aprendi a lidar com o nosso lado humano mais hostil. Aprendi a lidar com a minha própria timidez, minha falta de autoestima. Os livros ajudaram-me a conviver com as minhas limitações e com as indiferenças alheias. Abriu-me a visão para as percepções do mundo. Ajudou-me a conviver de uma forma mais pacífica com aquilo que não fazia parte da minha cultura ou realidade. A literatura deu-me a sensação de completude, importância e, acima de tudo, saber qual é o meu papel, o meu lugar no mundo.



 


Foto: Túlio Viveiros




Foto Tlio Viveiros Foto Tlio Viveiros



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