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O silêncio, a essência e o ser


Data de publicação: 27 de janeiro de 2022
Coluna: Guilherme Cogo - Crônicas Sórdidas
Colunista: Guilherme Cogo



Os momentos de silêncio significam um vislumbre de plenitude ou geram incomodação por não se ouvir aplausos vindos de uma plateia? Creio que esse seja um questionamento fundamental para a sociedade como um todo.

Em uma realidade na qual tudo está baseado em buscas por sobreposições e inflações dos egos, pouco se reflete acerca da real importância do ser em sua concepção mais simples e direta, pois tudo têm de estar condicionado a posicionamentos alheios.

Redes sociais são belos exemplos disso. Nelas, as pessoas procuram incessantemente mostrar faces que, em condições solitárias de vivência, sequer mostrariam ao espelho. E o que vem a explicar o fundo de tal necessidade humana é a ausência de satisfação pessoal, a qual remete à necessidade de várias plateias, para diversas apresentações, nos mais variados palcos.

Gosto muito de relacionar essa temática com Shakespeare. O autor, em seu livro "Hamlet", mais especificamente no Ato V, Cena I, demonstra a importância da essência do ser, pois, um príncipe como Hamlet, ao adentrar em um cemitério, observa atentamente as ações de um coveiro e fica intrigado, dizendo:

"Mais um crânio. Por que não há de ser o de um jurista? Onde foram parar as sutilezas, os
equívocos, os casos, as enfiteuses, todas as suas chicanas? Por que consente que este maroto rústico lhe
bata com a enxada suja, e não lhe arma um processo por lesões pessoais? Hum! É bem possível que esse
sujeito tivesse sido um grande comprador de terras, com suas escrituras, hipotecas, multas, endossos e
recuperações. Consistirá a multa das multas e a recuperação das recuperações em ficarmos com a bela
cabeça assim cheia de tão bonito lodo? Não lhe arranjaram seus fiadores, com as fianças duplas, mais
espaço do que o de seus contratos? Os títulos de suas propriedades não caberiam em seu caixão; não
obterão os herdeiros mais do que isso?"

Assim e, claramente, o autor pretende demonstrar sua crítica aos sujeitos, não enquanto alguém que algo tem, mas uma pessoa que se considera de tal forma por ser alguém, sem rodeios em torno de algo que se finge existir.

E isso, nenhuma plateia, nenhum comentário politicamente correto e sequer um elogio mal intencionado podem adquirir. Porque a essência de seu ser está onde ninguém mais vê ou escuta, de forma que o que mais lhe grita sempre será o ensurdecedor silêncio proveniente de seu quarto às escuras, quando todas as máscaras estiverem guardadas.

Portanto, como bem aduz Shakespeare na referida obra, questiona-se: ser ou não ser? Eis a questão!

Por: Gulherme Cogo

Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. Atua como colunista no Jornal A Região. Escritor iniciante.