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Homenagem a Hugo Rossi - Está faltando alguém na avenida


Data de publicação: 14 de fevereiro de 2017
Coluna: Coronel Vogt
Colunista: Coronel Vogt




      Numa tarde de sábado, fomos visitar o Cantor JOÃOSITO, líder do Conjunto JOÃOSITO E SEUS COMETAS, Tio do ADEMAR, o Gauchinho. Estavam ensaiando. Cantavam com prazer. O JOÃOSITO era compenetrado. Não falava com a piazada. O HUGO ROSSI, que tocava pandeiro, era comunicativo e leal ao irmão. Antes de seguirmos para a Curva do Rio Bonito, escutamos uma canção genial: SHALANA (... “nas tuas águas tão serenas / vai levando o meu amor”).


         Depois, encontrei o HUGO colocando os números nas casas da Cidade. Curioso, como de costume, perguntei qual seria o número da Loja do meu Pai (FRIDOLINO), a Casa Santo Antônio. Ele respondeu: “999!” Logo em seguida, afixou o número. Está lá até hoje!   


         Era comum encontrar os ROSSI, o Paraguaio e o VERCI comprando tinta na Loja do Pai, pintando as casas da “alta sociedade”... Num dia de preguiça, quando eu voltava da aula no Colégio Santa Gema, encontrei o HUGO e seus amigos pintando a Igreja N S de Lourdes... O que mais me impressionou foi que um deles subiu na abóboda da Igreja. Não tinham medo! Estavam acostumados... Mas foi uma operação de alto risco!


         Ao analisar a trajetória dos heróis do passado, temos que conhecer o mundo deles... Tudo que acontecia lá fora refletia nos nossos lares. Alguns gestores gastavam mais do que arrecadavam. Provocavam inflação, fome e desemprego. Ficávamos dependendo da Colônia ... O Pai dizia, na Loja: “Quando a Colônia vai mal, tudo vai mal!” Eu não entendia de economia, mas as prateleiras vazias não sabiam mentir ... Os políticos estavam bem. O Povo passava fome! Esse era o Mundo de HUGO! Os pintores não tinham trabalho. Reuniam-se, na Barbearia do RIQUETO e do TELMO, esperando, com ansiedade, que uma boa alma resolvesse pintar a casa. Hoje, o passado parece pequeno, mas, à noite, faltava luz! Preocupados com obras de grande popularidade, os governantes não investiam no futuro do BRASIL. Quando a FGF mandava uma bola nova, era motivo de festa. O meu Pai foi um dos Sarandienses que teve que pagar a conta da irresponsabilidade dos outros ... Quando a Loja fechou, 150 famílias deixaram de pagar as dívidas. Ele era compreensivo, mas sofreu muito com isso...


         O HUGO era assíduo: comparecia aos eventos. Era versátil: foi jogador do Torino, do Ipiranga e do Harmonia. Trabalhou como Pintor, Músico e Treinador. No outono da vida, passou a produzir a coluna Túnel do Tempo, a mais lida do Jornal. Com boa memória, colaborou para que outras gerações conhecessem as lições do passado ... Resgatou nossa bonita história. Mostrou aos jovens que é possível vencer na vida ...


         O HUGO poderia ter produzido bem mais. Ele trabalhou em condições desfavoráveis. Apesar dos laçassos da pobreza, conquistou resultados magníficos, no campo dos valores imateriais. O entusiasmo dele era contagiante. Entendia de gente. Sabia se posicionar diante das autoridades e dos pobres. Ele acompanhava com interesse o destino de cada sobrinho e de cada jogador. Sentimental demais começou a morrer quando o destino desmontou o mundo que havia lhe dado à felicidade... Viu, com tristeza, uma geração inteira se espalhar pelo mundo...


         Ele amava o Futebol. Quando não havia dinheiro para mandar fazer camisetas, fazia com sacos de farinha... Da marca Harmonia... Foi ao Estádio dos Eucaliptos ver o Pelé jogar. Antes de um treino, comentou: “Ninguém tira a bola do Pelé!” Batizou o filho primogênito com o nome de um craque do Inter da década de 50: LARRY... (Larry Pinto de Faria ).


         A obra prima do HUGO  foi montar o melhor time de futebol da história do Grande Sarandi. Nos jogos decisivos, o Estádio Pedro Demarco ficava lotado ... Não cabia mais ninguém! Todos queriam ver as tabelinhas do VITOR HUGO, ITACIR, GETÚLIO e DALAVECHIA... Eles entravam com bola e tudo! O HARMONIA treinava todos os dias, ao cair da tarde. Seus jogadores eram exemplares: não cometiam faltas! Faziam sacrifícios: quando não havia ônibus, viajavam na carroceria dos caminhões, correndo uma série de riscos... Nada se conquista sem trabalho e sacrifício!


         O Técnico era agregador hábil. Reuniu todos os jogadores, titulares e reservas, na casa dele, para uma confraternização, num sábado à noite, na véspera de uma final de campeonato com o temido IPIRANGA, do Willy Schaefer. Estávamos tentando aliviar a tensão... Lá pelas tantas, o HUGO declarou: “Olha, gurizada, amanhã à noite, neste mesmo horário, estaremos todos felizes, comemorando... ou arrasados! O meu primeiro time e o dele era o HARMONIA ... o segundo era o INTER ...


         Eu não consigo imaginar os treinos do HARMONIA sem ele ... Sua voz paternal ainda ecoa na lembrança: “Não tem ninguém no rebote!” / “Cruza para trás, SABINO!” / “O VÍTOR IVO vai bater a falta!” / “Solta a bola, FLÁVIO!” / “Chuta de fora da área, ROGÉRIO!” / “QUICO, levanta a cabeça!” ...


         Ainda ontem  me emocionei, ao me lembrar que o HUGO recebeu, de braços abertos, os negros e os pobres ...Dono de um coração grandioso, contou que o Pelé, quando foi fazer teste no Corinthians, foi mandado embora ... era um negro magricela! Todos ganharam uma oportunidade, inclusive eu, um branco magricela ...


O tempo provou que ele estava certo: os negros SABINO, VALTER e CATARINO deram grandes emoções ao Povo Sarandiense ... Tornaram-se queridos craques. Na época, pensei que o SABINO não suportaria a pressão de barulhentas torcidas... Mas eu me enganei. Ele ia para cima do lateral direito... Passava de passagem! Que saudade! Encontrei-o num supermercado. Ficamos um tempão recordando os momentos felizes que o HARMONIA nos deu...


Um dos fatores das campanhas vitoriosas do ALVI-AZUL foi a sociabilidade do HUG... Conversava com todos! Ele não deixava o time parado: marcava jogos e ajudava divulgá-los... Parece fácil? Mas não havia jornal na Cidade! Ele sabia a situação de cada jogador. No fundo, era sensível, tinha tato... Quando a doença levou o capitão OSVALDO (TITUM), ficou inconsolável. Nem subiu para o treino...


Ao visitarmos o campo do HARMONIA, para recordar, ele me disse com tristeza: “VENDERAM TUDO!” Uma legião de Sarandienses passou a infância naquele gramado! Com arquibancadas confortáveis, ali seria o nosso Maracanã! É difícil construir, sem destruir o que os outros construíram ... Foi o fim de um grande sonho!  O jogo acabou!


       Não deixou de ser humilde, nem nas grandes vitórias... Apesar dos ventos da adversidade , foi um homem feliz ... DEUS permitiu que ele vivesse momentos maravilhosos da vida nacional  ... Era saudosista. Guardava de lembrança cada carta, livro, fotografia, revista, notícia dos jogadores que treinou ... Na parede da sala, mostrava com orgulho um retrato grande do Conjunto JOÃOSITO E SEUS COMETAS ... que o tempo levou.


         Trabalhou cercado por amigos leais, como o NILO BAUDIM, que trabalhava várias horas seguidas na copa, vendendo gasosa e defendia os jogadores do HARMONIA como se fossem seus filhos. Cercado por amigos leais, como o ADEMAR FERRONATO ... que o ajudou até os 45 minutos do segundo tempo ...


         Não consigo imaginar os treinos do HARMONIA sem ele ... Tudo bem: o Pai me ensinou que a alma não morre. Mas, para quem teve o privilégio de trabalhar com o HUGO, a Avenida nunca mais será a mesma!


         Aprisionado pela doença em sua própria casa, viu os Anjos chegarem no SARANDI ... Vestia uma camiseta do Internacional de Porto Alegre. Levava um crucifixo grande no peito e um pandeiro velho na mão...


                            “E assim ele se foi,


                             nem sequer se despediu.” ( 1 )


                             Deixou indômita saudade,


                             no coração da Cidade


                             e na curva do rio ...


                                               CLAUDIO FREDERICO VOGT


( 1 ) Canção SHALANA, do Mário Zan.



Por Claudio Frederico Vogt



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