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Uma escola inesquecível


Data de publicação: 22 de junho de 2016
Coluna: Coronel Vogt
Colunista: Coronel Vogt



 


Quando eu era pequeno, imaginava que seria Comerciante ( como o Pai FRIDOLINO ), Bispo ( como o Dom CLÁUDIO ) ou Jogador de Futebol ( como o DINO do HARMONIA ou o alemão HELTON do INTER ). Esta dúvida durou até o dia em que assisti, no Cine Guarany, um filme em que Soldados faziam uma pista de obstáculos. Daquele dia em diante, decidi seguir a carreira militar.


Em dezembro de 1969, com 16 anos, ao final da quarta série do Ginásio Sarandi, prestei, sem fazer cursinho, concurso para a Escola Preparatória de Cadetes do Exército ( ESPCEX ). Havia 200 vagas. De cada 30 passava 1. Não fui selecionado.


Em 1970, com o incentivo da Irmã GENOVEVA, do Colégio Marista ROSÁRIO ( PORTO ALEGRE – RS ), preparei-me para o segundo Concurso. Fiz exercícios e mais exercícios.  Resolvi provas de anos anteriores. Li textos em voz alta. Em dezembro daquele ano, fiz a prova. Estava mais difícil. Voltei para casa de cabeça baixa... Mas, já no dia seguinte, comecei a estudar para o terceiro Concurso.


Fui passar o Ano Novo com a Família. Compareci ao Baile no Clube Harmonia. O reencontro com velhos amigos me ajudou a esquecer a tristeza ... Ao voltar para casa, de madrugada, após uma festa agradável, quando eu entrava pela porta da sala,  a Mãe ( JOVILDE ), ainda deitada, orgulhosa, me disse: “QUICO, a Escola mandou um telegrama: TU PASSOU!”


Logo chegou um ofício com orientação, datas e a relação do material do enxoval. Tudo bem organizado. Um dos pedidos da Escola nos deixou surpresos: era obrigatório levar, também, um par de tamancos! Precisava duas malas: uma grande e a outra também. As dificuldades não eram maior do que o meu orgulho. A Escola Preparatória era considerada superior a todos os Colégios Militares do BRASIL.


Foi criada, em 1940, pelo Presidente GETÚLIO VARGAS, em SÃO PAULO – SP. Teve iniciada a construção da sede própria em CAMPINAS, no Bairro CHAPADÃO, em 1944, em magnífico estilo colonial. Passou a funcionar em CAMPINAS, em 02 de abril de 1959, integrando Alunos dos quatro cantos da Pátria, irmanados pela nobreza dos valores morais.


Hoje a ESPCEX, respeitada dentro e fora dos muros do EXÉRCITO, está  estruturada com o que há de mais moderno na área educacional. Engalana a elegante Avenida PIO XII. Enche de orgulho o Povo de CAMPINAS. Que outrora soube lutar por ela ... A história do EXÉRCITO aproxima-se, celeremente, dos 400 anos. E não sabe colocar o último ponto. E, ao raiar deste 2016, escreve outra página. O Comandante concede, após 75 anos de funcionamento da gloriosa Preparatória, 40 vagas para jovens meninas ... Poderão seguir carreira até o último posto ( General de Exército ) ...


 Apresentei-me na Escola, em fevereiro de 1971, para um período de adaptação. O clima era de otimismo geral! Sob o comando do General MÉDICI, o BRASIL crescia a 10% ao ano! Naquela época, 16 jovens não suportaram a dureza dos exercícios e a saudade ( de casa ou da namorada ). Pediram desligamento. Os Alunos eram discretos, idealistas e autoconfiantes. Sonhavam alto. Em 01 de março, o então Comandante, Coronel MILTON PAULO TEIXEIRA ROSA, proferiu, no auditório, a Aula Inaugural. Com discurso  eloquente, enalteceu os valores da Escola: espírito militar, disciplina, patriotismo, fé em DEUS, lealdade, sacrifício, amor ao trabalho, abnegação... Eu fiquei emocionado quando ele falou sobre a amizade: “Aqui vocês farão amigos para toda a vida!” Passadas quase cinco décadas, vejo que o Comandante tinha razão. Naquele Castelo Rosado, nunca presenciei um ato de deslealdade ... Na Turma Monte Castelo, a Lealdade fez morada ...


Oriundo de uma Cidade pequena, fiquei surpreso com a estrutura da Escola Preparatória. A Loja do meu Pai funcionava bem com 8 pessoas ... Eu estava diante de um monte de gente. Cada um sabia o que fazer. Todos aqueles profissionais possuiam  espírito de amor ao trabalho. Eram 36 oficiais, 36 professores, alguns Servidores Civis e uma Companhia de Comando e Serviço ( CCS ) com a missão de preparar 200 “Cadetes de Ouro” ... O 28º Batalhão de Infantaria Blindado ( BIB ), tropa de elite da Reserva Estratégica do Exército, atendia, com prioridade, os pedidos de cooperação da ESPCEX.


 Os Oficiais e Professores eram compreensivos. Metódicos.  Acreditavam no Método de Trabalho.  Alguns mestres eram donos de prestígio nacional. Ministravam aulas com clareza. O alto nível intelectual  dos Alunos tornava os debates interessantes. O ambiente era de estudo. Todos se preocupavam com os Alunos, razão de ser da Escola. Quando o avião mais moderno do mundo pousou em Viracopos, os Oficiais nos levaram lá para conhecer o CONCORDE, fabricado pela FRANÇA. Não eram rigorosos com as nossas imaturidades. Eles, também, devem ter escrito os nomes das namoradas nos bicos de pato verde-oliva ( VO ). Um dos Ex-Alunos, o então Coronel APOLÔNIO, voltou para comandar o CASTELO ROSADO. Tinha moral para exigir. Sabia a quem perdoar. Sabia a quem punir. Sabia compreender. Assistia aos nossos treinamentos. Não demorou muito, o EXÉRCITO promoveu-o a General. Merecido!


 O EXÉRCITO acreditou na “ESCOLA DE CADETES”! Investiu nela! Criou condições de trabalho!  Em 1971, mais de 40 instalações conduziam o Aluno para ser feliz. Para aprender a aprender.  Era uma pequena Cidade dentro de uma grande Cidade. Apresento, a seguir, algumas dependências  que eram marcantes na vida dos Alunos:  1ª Companhia de Alunos ( Águia ), 2ª Companhia de Alunos ( Leão ), 3ª Companhia de Alunos ( Tigre ), Refeitório ( 4 refeições por dia ), Salão de Jogos e Leitura, vestiários, alojamentos, salas de aula para 30 Alunos, Seção de Educação Física, laboratórios, anfiteatro, cinema ( 2 filmes por semana ), quadro de honra ( publicava os 3 melhores ), Laboratório de Línguas, Biblioteca ( com mais de 6 mil volumes ), Parque Esportivo, Campo de Futebol Social ( “Estádio Sangue e Areia” ), Armazém Reembolsável ( AR ), Capela São Tomás de Aquino ( Com 300 lugares, integrava a Escola e a Cidade ), Boate, seções de Ensino e Administrativas ...


 Nas Olimpíadas Internas ( anuais ), os Alunos podiam competir em 6 modalidades: Atletismo, Natação, Futebol, Basquete, Judô e Voleibol. Poderiam, ainda, participar de Atividades Extra-Classe: Cinema, Ginástica Acrobática, Karatê, Capoeira e Danças Gaúchas. Alguns treinos eram realizados na Cidade, com profissionais de prestígio. Em síntese: tudo concorria para o crescimento do Aluno como Soldado e Cidadão. Para o fortalecimento de sua personalidade, cultura e sociabilidade.


 Uma estrutura de provocar inveja em qualquer Escola do mundo! Inserida numa das cidades mais importantes do BRASIL: CAMPINAS – SP. Que recebeu, com carinho maternal, brasileiros oriundos dos mais distantes rincões. Que teve participação decisiva na formação dos “CADETES”. Que deu bons exemplos, promoveu festas juninas, apoiou o Baile do Bicho e do Adeus, ofereceu confortáveis cinemas e cultos jornais ... e nos integrou na saudosa Praça dos Jequitibás ...


 A Cidade nunca foi o problema. Três anos passam voando. O “Cadete” passa de passagem... O problema é deixar um coração sangrando ...


 Não quero ser poético, mas a vida foi. Não quero ser dramático, mas a vida foi. Eu fui quem mais sofreu com o silêncio dos ausentes! Foi com as mãos trêmulas que apaguei o nome de alguns  companheiros na Relação de Chamada ... Mas, seguindo o exemplo dos valentes Paraquedistas, 207 “Cadetes de Ouro” seguiram em frente,  domaram a saudade xucra e superaram todos os obstáculos!  


Ao final do Curso, o Comandante determinou que os Oficiais nos conduzissem até a ACADEMIA MILITAR DAS AGULHAS NEGRAS -  AMAN ( RESENDE – RJ ). Estava preocupado com a segurança. Quando o meu ônibus saiu pelo portão e tomou a Avenida PAPA PIO XII, comecei a me lembrar ... que foi aqui que quase tudo começou,  que  aprendi Atletismo, Disciplina, que vivi três anos emocionantes da minha  juventude, que conheci amigos leais ... que fiz a Pista de Obstáculos.  A minha querida Escola foi ficando para trás ...cada vez mais pequena ... E, aos poucos, o majestoso CASTELO ROSADO foi desaparecendo diante dos meus olhos  e da minha vida ... “Ali onde eu chorei, qualquer um chorava ...” ( * ).


CLAUDIO FREDERICO VOGT – EX-ALUNO 060 da ESPCEX


( Observação: dos formandos de 1973, quatorze foram promovidos a GENERAL e um a BRIGADEIRO ).


( * ) Compositor PAULO EMÍLIO VANZOLINI ( Canção “VOLTA POR CIMA” ).


Por Claudio Frederico Vogt


DiárioRS


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