menu
Colunas

Quando o amor vira amizade. O que fazer.


Data de publicação: 7 de julho de 2015
Coluna: Consuelo Pasqualotto
Colunista: Consuelo Pasqualotto








Quando a Carine me passou o tópico para o artigo a minha primeira resposta foi: “a maioria dos relacionamentos está assim”. Pensando de imediato nas queixas de baixa libido das mulheres e na dinossaurica dificuldade dos homens de entenderem suas companheiras. Logo, controlando minha impulsividade e analisando melhor e principalmente trazendo da experiência profissional, também digo: “na maioria dos casais a mulher deseja muito mais a amizade do que os homens”. A mulher tem mais habilidades, e necessidades, para conversar sobre assuntos que envolvam relacionamentos. Os homens, no geral, são mais voltados para assuntos objetivos e práticos e sua habilidade de conversar sobre assuntos de afeto é menor. Preferem falar sobre tudo, menos sobre “como vamos nós”.


Quando o amor vira amizade...isso é ótimo, amor com amizade é uma mistura homogênea deliciosa . Acredito que o amor só sobrevive numa relação onde exista amizade. Parece-me que o mais natural seria dizer “e quando a amizade vira amor, o que fazer”, porque a amizade estando na base pode-se fazer um prognóstico bom para esta relação. Eu não entendo uma boa relação onde não exista amizade. Mas a questão aqui colocada “o que fazer quando o amor vira amizade” me parece se referir mais a quando o casal já não tem mais o “fogo da paixão”. Quando os dois já não estão mais tão erotizados um pelo outro como era no início, quando a proximidade física fazia “chispar”, quando o perfume do parceiro fazia com que ela lançasse todos os seus tentáculos sedutores para prendê-lo em casa. E hoje nem ela compra lingeries novas e sexies e nem ele se perfuma tanto para ela.


O grande problema, ou a grande armadilha nas relações é que as pessoas não pensam que com o tempo vai mudar e não se preparam para uma relação duradoura. Vai mudar o corpo, vai mudar a forma de ver a vida, antes era por um, agora por dois, vai mudar a conta bancária, vai mudar a rotina, irão surgir situações inusitadas aonde cada um vai se revelando aos poucos. Os jovens casais pensam no agora e se esquecem de projetar o futuro. E projetar e pensar no futuro significa se preparar para ele. Normalmente projetam o futuro na fantasia do agora. O agora é lindo, a paixão é linda, os defeitos são pequenos, as falhas de caráter são vistas como nada perigosas, a falta de cuidado é falta de tempo que depois se corrige, e assim por diante. O amor é sentido, não é pensado. Como assim, o amor tem que ser pensado? Sim, o amor tem que ser pensado e é também uma decisão consciente. Por não pensarem, quando se deparam, mais adiante, com novos sentimentos em relação ao(a) parceiro(a) se assustam, não sabem o que fazer, se confundem, se isolam, e, o mais perigoso, buscam explicações para o que está acontecendo fora da relação.  Ou seja, passados alguns anos, aquele sentimento forte, que corria pelas veias e entumecia tudo agora está mais brando e para que aqueça já se faz necessário alguns artifícios. E aí vem as dúvidas:  “será falta de amor”? Será falta de estímulos? Será que estou com problemas hormonais? O que está acontecendo? Ele (ela) é uma pessoa boa, não gostaria de me separar por falta de “amor”.


Então, para que se possa entender esse lado lunar do amor, como dizem, é importante conhecer como se dá o amadurecimento da relação, quais são as fases da relação a dois. E falar em fases não significa que sejam exatamente iguais para todos, mas de forma geral ajuda a entender os diferentes momentos pelos quais passa uma relação a dois. Vale lembrar que cada casal tem seu ritmo, sua dinâmica.


Cada relação amorosa é especial e única, no entanto, a maior parte delas inicia com uma alta intensidade de enamoramento, de paixão. Etapa em que se busca estar com a outra pessoa o máximo de tempo. Fase em que se sonha muito e se fazem juras eternas de amor infinito. E se gosta de tudo no outro. Fase de idealização.


Com a convivência, com a rotina, com o conhecimento dos hábitos, desde hábitos de sono, de higiene, de uso do dinheiro, enfim, com as questões práticas da vida a dois, começam a surgir as diferenças. Cada um começa a identificar coisas que lhe (des)agrada no outro. A medida que se tornam mais íntimos, física e emocionalmente, também surgem as vulnerabilidades individuais, as fraquezas, as dificuldades de lidar com determinadas questões onde não se gostaria que o outro conhecesse exatamente este “lado” que cada um tenta manter a sete chaves. Este momento é perigoso, ou o casal se abre ao diálogo, ou a relação se esfria muito e se afastam levando vidas paralelas, ou se separam.


Sobrevivendo a esta fase cada um está mais forte, mais independente das críticas do outro. E, ou isto aproxima mais ou exatamente isto faz com que um dos dois decida seguir sozinho. Se o casal está mais próximo, já se conhecem no íntimo de suas fragilidades, entendem que cada um precisa seu espaço na relação e que os pontos delicados devem ser respeitados, tem muita chance desta relação crescer e se fortalecer. O casal, nesta etapa, pode tirar proveito do que já aprendeu. Então, ou o casal evolui, ou volta à fase anterior e rompe. E romper não significa necessariamente separação formal, significa não ter mais amor e amizade suficientes para desfrutar da relação. Podem até seguir morando juntos, mas sem afeto suficiente para cuidarem-se mutuamente.


Superadas as fases anteriores vem o momento em que o casal está sólido, e “escolhe” ser dois, ficam juntos por opção, por aceitação e por compromisso de um para com o outro. Etapa em que se abandona a idealização e se aceita o outro tal como ele é. Perde-se a vontade de transformar o outro no que se deseja e se aceita que a relação não é e não será perfeita. Aqui, os valores construídos na relação são fortes e suficientes para sustentar a união. Etapa em que se deve cuidar para a rotina não se instalar com todas as suas raízes e se transformar num Baobá. Deve-se cuidar e nutrir o afeto, a sedução e o namoro porque já se aprendeu que colocar o outro como prioridade é importante. A esta altura já se entende que uma relação só se mantém com proximidade, com intimidade, com estímulo e com amizade. A intimidade emocional torna-se tão ou mais importante que a intimidade sexual. Erich From cita em seu livro A Arte de Amar, que o amor erótico somente sobrevive se houver amor fraternal. 


Se perguntarmos para alguém “como é a relação ideal no casamento?”, provavelmente ouviremos respostas do tipo: “tem que ter companheirismo, tem que ter respeito, tem que ter proximidade, tem que ter cuidado, tem que dedicar tempo” e estas respostas são praticamente definições de amizade. 


Interessante é observar que na relação social entre um amigo(a) e outro(a) eles normalmente se dizem as “verdades”, algo que muitas vezes um parceiro tem receio de dizer ao outro no casamento. Nos atendimentos com casais uma das coisas que mais escuto é sobre a dificuldade de um dizer ao outro o que realmente sente e acredita sobre ele, sobre a relação, sobre aspectos tão corriqueiros que alguém de fora diria: “o quê, é isto que te chateia? Não acredito!” acontece que no convívio pequenas coisas, com o tempo, adquirem dimensões estratosféricas capazes de criar distâncias planetárias! O medo da invalidação, de ser rejeitado e de que o outro se afaste... e acaba afastando exatamente por não falar. Tudo aquilo que se silencia vai criando um espaço escuro e perigoso.  E quando existem espaços outros podem entrar. Portanto, se a base da relação tem antes de tudo, amizade, o viver juntos será mais prazeroso. Amigos se ajudam, se apoiam, se corrigem, vão juntos a eventos, restaurantes, riem juntos. Quer relação melhor do que isto para um casamento? E, melhor, pode ter sexo!!


Todas as boas relações se sustentam onde é boa para ambos.  Cada casal sente o que é bom para si. E, quando chegar o momento em que a relação do casal ficar menos erótica - porque vai chegar, esta é a verdade, isto é pauta frequente das relações longas - e o casal se descobre mais amigo do que amantes, porém, para eles isto não é anzol de problemas, não gera conflitos de validação, pelo contrário, descobrem como desfrutar da convivência, então está bem, não somos nós que vamos lá dizer que eles têm que ser diferente. Agora, importantíssimo, se um dos dois se queixa da falta de erotismo, de baixa libido, de descompasso de desejo entre eles, e relatam que isto está trazendo problemas para a relação, então sim, se tem um problema a ser resolvido. E, justamente neste momento, quem cultivar a amizade favorecerá para a busca de alternativas. Dificuldade na área da sexualidade é comum, muito mais comum do que se pensa. E para isto se pode procurar ajuda especializada. Muitos fatores predispõe a isto, desde sociais, religiosos, culturais, questões da vida como estresse, dificuldades de estabelecer prioridades em relação ao tempo, crenças limitantes em relação ao sexo, e tantas outras razões que, entendidas e superadas, podem levar o casal a uma longa vida amorosa e prazerosa.



Por Psic. Consuelo Angela Pasqualotto Poloni


Cursando Terapias de Terceira Geração ACT/FAP/DBT/Mindfulness 


DiárioRS

CLIQUE AQUI, curta a Fan Page do site e  fique informado sobre as notícias da região.




casal casal
casal
rodape diario